Há alguns milénios atrás (pelo menos 5000 anos), na civilização do vale do Indo, antiga Índia e actual Paquistão, florescia uma forma de estar e observar a vida que se viria a chamar Yoga. Esse conhecimento que foi crescendo e sendo ensinando de geração a geração pelos sábios (rishis) através do método “boca a ouvido” chegou até nós, em pleno século XXI onde, talvez mais do que nunca, a prática e o estudo do Yoga são necessários para resolver esta era de conflitos profundos na sociedade. E se continua a fazer sentido praticá-lo é porque a condição humana não mudou nestes últimos milénios: continuamos a ter o mesmo tipo de dificuldades e a buscar o mesmo, a felicidade.
A palavra Yoga é traduzida geralmente como “união”, no sentido de unir as diversas facetas do ser humano (corpo, respiração, mente, ego, intelecto). Essa união leva o praticante a centrar-se, alinhar-se, purificar-se como um todo de forma a poder conhecer qual a sua natureza real.
"A unidade da respiração, a consciência e os sentidos, seguida pela aniquilação de todos os conceitos: isso é o Yoga."
Maitrí Upanishad, VI:25.
Mas Yoga também significa trabalho, aplicação. O Yoga é um caminho e também o fim, para conhecermos a nossa verdadeira realidade, mais além das construções mentais espaço-temporais de formas e nomes. Pode ser entendido como uma cultura já que abarca tradições milenares, filosofia de vida, prática de técnicas, estudo e reflexão, arte, etc. Ao longo deste processo de prática e conhecimento, o yogi vai ampliando a percepção do mundo à sua volta, tornando-se mais sensível aos seres que o habitam, sejam eles humanos ou não, e descobre-se como sendo completo. É esse o grande objectivo do Yoga, a libertação (moksha) da sensação ilusória de ser incompleto, de que falta algo, de querer ser ou tornar-se algo diferente. Para sermos mais correctos, não se trata de uma experiência que o praticante tem mas antes uma realização de algo que está sempre presente, o Ser que observa e que permeia tudo.
Existem actualmente diversas formas de praticar e aplicar o Yoga: Jñána Yoga (Yoga do conhecimento), o Karma Yoga (Yoga da acção), Bhakti Yoga (Yoga da devoção), Rája Yoga (toda a prática avançada e subtil), etc. Uma das mais conhecidas e utilizadas no Ocidente recebe o nome de Hatha Yoga. Os Hatha Yogis utilizam seu corpo físico, a energia que anima esse corpo (prána) e técnicas de concentração profunda como forma de poderem libertar-se dos condicionamentos, da escravidão sensorial, das misérias existenciais, sentimentos indesejáveis, entre outros. A prática e o estudo do Hatha Yoga vão desde a ética e o cultivo de valores fundamentais para o yogi (como a não-violência, a verdade, a não possessividade, etc.) até às técnicas mais contemplativas de meditação.
Nas palavras do Professor Pedro Kupfer:
“A proposta que o Hatha Yoga nos faz é que seria desejável dedicarmos boa parte dos nossos esforços à realização da mais importante das tarefas. Essa tarefa é tríplice:
1) Em primeiro lugar, o Hatha Yoga propõe o desenvolvimento de uma apreciação ética da existência e de uma vida de virtude, orientada para o desenvolvimento e a auto-descoberta interior.
2) Em segundo lugar, o Hatha Yoga nos propõe o cultivo da saúde psicofísica em seu sentido mais amplo.
3) Finalmente, como objectivo mais importante (muito embora não exclua os anteriores), o Hatha Yoga busca a realização do potencial espiritual do praticante, o estado de moksha.”
Isto faz-nos pensar se realmente o que se fala e pensa do Yoga por aí tem algo a ver com a sua proposta inicial: a de conhecimento de si mesmo e consequente libertação do sofrimento. O Hatha Yoga e o Yoga em geral, nunca teve como prioridade curar doenças, aliviar stress, promover bem-estar ou melhorar o desempenho sexual dos chamados yogis.
O Yoga deve ser tratado como o que ele é de facto: uma escola filosófica cujo objectivo final é moksha (liberdade). O que vemos hoje em dia é milhões de pessoas praticando a ginástica do Yoga sem o conteúdo, o contexto onde o Yoga está inserido. Esse contexto é fundamental para que possamos extrair do Yoga todo o seu potencial e não apenas seus benefícios terapêuticos.
Chegamos então facilmente à constatação que Yoga não é tão-pouco uma religião pois não tem dogmas, nem doutrinas, nem nada em que acreditar. O Yoga é feito por seres humanos para seres humanos. Assim, qualquer pessoa de qualquer credo ou religião poderá praticar Yoga sem que isso afecte as suas convicções. O Yoga poderá ajudar a tornar um cristão num melhor cristão, um muçulmano num melhor muçulmano, etc.
Qualquer pessoa pode praticar o Yoga desde que tenha força de vontade, nem que seja um pouquinho no início. Aconselhamos sempre que a pessoa consulte o seu médico antes de iniciar a prática para que tanto ela como seu professor de Yoga saibam como adequar a prática às suas necessidades. Mesmo que exista alguma limitação física, quase sempre é possível ajustar a prática ao praticante permitindo que o Yoga não só possa ajudá-lo no processo de cura mas principalmente levar a pessoa a um conhecimento de si mesmo. O tratado
Hatha Yoga Pradipiká diz-nos:
“Qualquer pessoa que pratique activamente Yoga, seja ela jovem, velha ou mesmo muito velha, enfermiça e débil, pode converter-se em um siddha. (I:64.)
Qualquer um que praticar pode conseguir a perfeição (siddhi), a menos que seja preguiçoso. Não se conquista a meta do Yoga apenas lendo livros. (I:65.)
Tampouco se conseguem os siddhis vestindo-se de uma forma determinada ou especulando sobre o Yoga: somente se triunfa através da prática constante. Sem dúvida, este é o secreto do sucesso na prática. (I:66.)”
O Yoga vale por aquilo que nos proporciona no momento, integrando passado e futuro. O resultado da prática acontece agora. Praticando com dedicação, perseverança, desapego e discernimento o Yoga vai revelando cada vez mais seu poder intrínseco, desfazendo as malhas da ignorância, revelando o conhecimento. O Yogi passa a viver de forma mais simples, com o mínimo de necessidades, observando o mundo de forma objectiva, aceitando os factos como eles são e fazendo, se for caso disso, o que for necessário para os melhorar.
Termino com as palavras do erudito Georg Feuerstein.
“O método yogik é perfeito. Surge da experimentação prática, convida a ela e inclusive a exige, e se demonstra por meio da experimentação pessoal. A falta de sucesso no caminho yogik não é provocada por um defeito do Yoga, senão sempre pelo fracasso da pessoa que carece do critério necessário ou não segue correctamente seus procedimentos. (…) O Yoga é como uma mãe paciente que nutre a todo aquele que esteja disposto a realizar o mais humilde gesto de compromisso em relação ao caminho espiritual. (…) O Yoga nunca foi dirigido ao consumo fácil e as promessas de alcançar soluções rápidas, ou inclusive a iluminação num fim-de-semana são ostensivamente ridículas. Na verdade, obtemos do Yoga aquilo que lhe aportamos.”